Outro dia

No ônibus havia um velho com os cabelos longos completados por uma barba enorme que era tão grande e branca que parecia mudar de cor.

Fiquei pensando que ele poderia ser eu mais velho mas minha barba nunca seria igual e eu nunca teria saco para deixá-la crescer tanto. A minha já esta grande e nos últimos tempos a única coisa que penso em fazer para meu bem é tirá-la.

Desci do ônibus e sabia que teria que subir escadas e pegar a passarela para atravessar a avenida. Já havia tomado algumas doses de algumas bebidas e não achei nada mais justo que afirmar minha masculinidade me colocando no perigo de atravessar no meio do trânsito rápido que já não era rápido e nem denso por se tratar de 2:30 da manhã. Vi um carro ao longe e corri pela avenida. Tropecei em algo que eu não pude ver. Mirei a sarjeta do outro lado e fui até o fim.

Permaneci na calçada satisfeito com meu feito daquela noite quando avistei um careca muito forte ao longe. Bem , ele era muito forte e muito louco e um puta traficante de drogas. Era o que parecia. Resmungava coisas que eu não entendia embaixo de um ponto de ônibus. Havia uma chuva fina que não me preocupava nem um pouco. Na verdade só fui percebê-la quando pensei em escrever esse texto.

Fiquei cagando de medo.  Ele poderia ter um canivete, revólver, metralhadora ou então um mal humor. Percebi que ele havia me percebido. To fudido!  Atravessei a rua. Tinha jurado para mim que se ele viesse na minha direção daria um murro na sua cara, uma bicuda na sua cara e sairia como um herói de filme americano. Mas a cada um metro que eu andava percebia que estava um metro perto dele. Quando faltavam quinze eu não agüentei. Sai em disparada com uma mochila nas costas.  Corria mas não me sentia como um animal que tentava salvar a sua vida. Me sentia como um cara morrendo de vontade de cagar . Com o rabo encolhido e com passos não muito frouxos para não demonstrar a expectativa. Só pensava nisso. Que eu era é muito viado em estar correndo feito um viado. Me passou pela cabeça voltar e atravessar a sua frente em câmera lenta e exclamar de longe: Viado é o caralho! Mas achei melhor na próxima vez.  Ou nunca fazer isso na minha vida.

No final da esquina à esquerda havia uma base móvel da polícia. Me senti mais calmo e seguro. Andei mais 200 metros até a portaria do prédio e encontrei o porteiro, que era um senhor que parecia tranqüilo e que eu nunca havia visto acordado.

Abri a porta e ele abriu os olhos. Eu suava demais. “Aconteceu alguma coisa?”

E eu só pude responder. Viado? Viado é o caralho!

 




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